Noto, não sem certo pesar, como as principais ideias ou os simples questionamentos sobre vida nascem no ônibus, lotado ou cheio, estando sentado ou em pé. Eles vêm do nada, e arrisco dizer que vão para o nada também.
Sento no banco que dá para a janela, depois de um dia cheio na universidade. Com o corpo ali, mas com o pensamento em casa, onde milhares de outras obrigações e mini afazeres permeiam minha cabeça que tenta se silenciar com música no fone de ouvido, reflito, inicialmente, sobre o hoje. É um dia típico. Meio morno, meio frio, mas com um sorrateiro vento noturno. Do meu lado, outra pessoa com fone de ouvido deve pensar sobre a mesma coisa. Não sei.
Quando não é desconhecida, conversamos. Talvez para aplacar a rotina e a individualidade. Talvez por pura e saudável amizade. O cansaço me impede de discernir.
Volto a mente para os meus projetos e sonhos. Penso no conceito que criamos em que o ser humano satisfeito é o ser humano exausto, prostrado, com olheiras fundas e escuras. Não me parece bom. Não me parece certo. Não me parece…
Ligam o motor do ônibus. Toda a minha construção se esvai. É, talvez não fosse para concluir nada a respeito desse mundo e da forma como o encaramos.
É, talvez não hoje.